|
3º Domingo Comum
24 de Janeiro 2009
Paróquia de S. João Evangelista
Por muito que os queiramos ignorar, há por vezes dramas que de tão terríveis se impõem ao nosso pensamento e marcam lugar nas nossas preocupações; ao preparar esta homilia impôs-se-me naturalmente o drama do terramoto no HAITI. Como ignorar e como fugir daquelas imagens de dor, de sofrimento e de destruição que diariamente têm entrado pelas nossas casas e têm perturbado as nossas pacatas existências? Impossível olhar para o lado, pecado tentar ignorar o sofrimento de tantos e tantas. HAITI é por isso hoje e naturalmente tema da homilia. Trata-se de trazer a realidade sofrida da vida para a ambiência da fé. Trata-se de celebrar no meio da morte muitos exemplos de vida, trata-se de reflectir uma vez mais no sentido do sofrimento à luz da fé em Deus.
Para sempre na nossa mente ficarão gravadas as brutais imagens da destruição ocorrida, uma destruição maciça, intensa que tudo arrasou à sua passagem. Percebemos a fragilidade das seguranças de que nos rodeamos; aquilo que parece sólido e imponente reduz-se em questão de segundos a escombros perante a força da natureza no seu estado bruto. Percebemos nestes brutais "gemidos da natureza" um dinamismo próprio que assiste à própria Criação processo inacabado e sempre em constante transformação. Sofrimento, brutal sofrimento neste caso potenciado pela já anterior situação de pobreza vivida pelos Haitianos; pobreza e sofrimento uma vez mais de mãos dadas. Povo sem infra-estruturas dignas que nos últimos anos foi assolado pelos piores desastres naturais; ciclones, tufões, cheias tudo ali tem deixado uma marca de destruição e de morte. E no entanto percebemos que apesar de tudo isto o povo teima em viver, teima em reerguer-se, teima em reconstruir uma vida o mais normal possível. Percebemos que a vivência dolorosa do sofrimento cria paradoxalmente em muitos e muitas uma vontade e um espírito de ressurreição. Muitos reerguem-se do nada dispostos uma vez mais a refazer as suas vidas. Gente que através do sofrimento faz a dolorosa aprendizagem do que é essencial e daquilo que verdadeiramente vale na vida. A eles, às suas vivências colectivas se podem aplicar com propriedade muitos dos salmos bíblicos que retratam colectivos estados de alma de sofrimento e de abandono, por vezes de queixa perante Deus:
Como no salmo 6 que diz: "Voltai, Senhor, livrai a minha alma, salvai-me pela Vossa misericórdia. Estou esgotado de tanto gemer, todas as noites banho de pranto a minha cama, inundo de lágrimas o meu leito" ou como no salmo 69: "Salvai-me ó Deus, porque as águas quase me submergem. Estou a afundar-me no abismo profundo onde não há ponto de apoio; entrei no abismo de águas profundas, e as ondas já me cobrem. Estou cansado de tanto gritar, enrouqueceu a minha garganta, cansaram-se os meus olhos à espera do meu Deus".
Emocionantes sem dúvida e muito interpeladores os testemunhos de fé de que também nos vamos apercebendo no meio da desolação ; o da idosa salva das ruínas da Catedral que ao ser retirada canta e dá graças a Deus; o da criancinha de sete anos que explica que conseguiu sobreviver porque Deus esteve ao seu lado durante os dias em que esteve soterrado. O testemunho das comunidades cristãs que agora ao ar livre se começam a reunir para num cenário de desolação louvarem e darem graças a Deus. Nestes testemunhos, percebemos que a fé toca bem fundo no coração dos homens e das mulheres. Percebemos e intuímos nestes testemunhos uma fé poderemos dizer "purificada pelo sofrimento". Uma fé que deixa cair o seu lado utilitário e de segurança e que é assumida por quem já não tem nada a perder. "É a fé preciosa que deixou para trás a fé útil. Viver tal fé significa, realmente, atravessar o vale da sombra da morte (de que nos fala o salmo 23 quando diz : ainda que tenha de passar por vales tenebrosos, não terei receio de nada, porque tu Senhor estás comigo. A tua vara e o teu cajado dão-me segurança". O prémio desta fé, desta coragem é sem dúvida já uma profunda vivência do sentido da ressurreição. O Haiti é deste modo para nós um questionamento profundo, que faz tremer também a nossa fé tão utilitária e rodeada de tanta segurança. O tremor de terra não é só para eles mas faz sentir as suas réplicas no cómodo da nossa existência e quem não se deixar questionar, quem não mudar estilos e hábitos de vida perante este drama que apesar de longe se faz bem perto, quem assim proceder perderá uma vez mais a oportunidade de uma conversão mais profunda àquilo que é essencial na vida. Dizia um guia da República Dominica que fez de motorista a uma equipa de televisão da SIC : "Depois daquilo que estou a presenciar não ficarei o mesmo, estou a aprender a dar valor a outras coisas que até aqui não tinha dado". Esta é pois queridos irmãos, a oportunidade de crescimento que paradoxalmente está inscrita no meio da tragédia e do desastre. A este propósito e referindo-se à tragédia do HAITI dizia o sr Arcebispo de Cantuária: " Num mundo no qual o risco e o sofrimento são problemas globais, as necessidades dos nossos vizinhos são as necessidades de toda a família humana. Respondamos a essas necessidades como se tratassem das necessidades e do sofrimento da nossa família mais chegada e ficaremos surpreendidos pela diferença que tal atitude poderá representar.". A este propósito também uma palavra para as dezenas/centenas de equipas de socorristas que de todo mundo ali ocorreram. É impressionante perceber esta mobilização à escala mundial e como é belo e emocionante ver gente de diferentes raças e culturas irmanados no esforço de preservar e de resgatar aquilo que de mais precioso existe e que é sem dúvida a vida humana. Esta mobilização à escala mundial é a garantia de "que é possível" dramas de dimensão mundial, como a fome, a pobreza e as eternas guerras serem resolvidas por todos. "Aquilo que a todos diz respeito por todos deve ser resolvido". Bem hajam todos os que abnegadamente no HAITI estão a ajudar e entre eles muitos portugueses e portuguesas. Elevamos ao Senhor as nossas orações pelo seu trabalho. Bem hajam todos aqueles que por vezes com muito sacrifício enviam o seu dinheiro. Faço daqui o apelo para que aqueles de vós que puderem enviem o seu dinheiro. Dizia um responsável da AMI que a duração da permanência das equipas de socorro no palco da tragédia iria depender do maior ou menor apoio económico que viesse a ser angariado.
Queridos irmãos fica também aqui um apelo "para que o Haiti e todos os Haitis do mundo sejam conhecidos e amados por outras razões que não a tragédia. Assim Deus nos ajude." |